Blog Literatura e Outros Demônios

“Cacos”: o primeiro de muitos, por favor

 
“Cacos: Momentos Que Fi(n)cam”
Autora: Ciça Lessa
Editora: Amora
80 páginas
R$ 29,90

A Casa Tombada, um sobrado de fachada histórica preservada na região de Perdizes em São Paulo, onde acontecem cursos e eventos nas áreas de arte e cultura, abrigou na terça-feira, 23 de maio, o lançamento do livro “Cacos: Momentos que Fi(n)cam”, da autora estreante Ciça Lessa, o segundo título publicado pela Amora Editora.

Pouco antes das 19h, Ciça chegou à Casa com seus filhos, Matias e Tomás, estava radiante, mais que disposta a cumprimentar todos aqueles que lhe foram prestigiar, e também distribuir autógrafos, claro. Sua estreia como escritora foi a realização de um sonho acalentado desde a infância.

“Desde pequena, escrevia textos que chamavam a atenção das pessoas. Eu era criativa, e tinha uma linguagem bem minha. Ganhei concursos escolares, tirei 10 em uma redação da Fuvest. Gostava de escrever agendas – onde eu fazia um diário misturado com trechos de livro e anotações de sonhos”, conta Ciça.

Ciça tem uma extensa carreira acadêmica: formada em Letras pela USP e em Jornalismo pela PUC de São Paulo, especialista em Gestão de Pessoas e Projetos pela Universidade Federal de Itajubá, também pós-graduada no curso de Formação para Escritores pelo Instituto de Ensino Superior Vera Cruz, e mestra em Comunicação e Jornalismo novamente pela USP.

Trabalhando por alguns anos na revista Capricho, Ciça conheceu Silvio Testa, sócio da recém-nascida Amora Editora, que recebeu o manuscrito de Cacos para avaliação e decidiu publicá-lo. O segundo título da editora, poucos meses após o lançamento de “Morrer de Amor e Continuar Vivendo”, de Lorena Kaz.

“Quando, há um ano e pouco, o Silvio começou a montar a editora, me procurou para mostrar a apresentação do conceito. Queria ouvir palpites. Acho que nem eu nem ele podíamos imaginar a sincronicidade com que íamos os dois viver a concretização de nossos sonhos – ele com a editora, eu iniciando, enfim, minha carreira literária.”

O produto final de “Cacos: Momentos que Fi(n)cam” reúne vinte contos breves da autora, todos dentro do tema das relações humanas, trabalhando envolvimentos românticos, sexualidade, rompimentos e até a morte. Ciça não tem medo de encarar qualquer que seja o tema, seus escritos trazem personagens e situações singulares e verossímeis, trazendo à mente do leitor lembranças e emoções genuínas. Ciça é uma escritora dedicada ao aprimoramento constante, da teoria e da prática, e o resultado desse esforço é um texto impecável, finamente trabalhado.

A inspiração para seus contos vem de diversas fontes, mas sempre buscando pôr no papel, e consequentemente nas cabeças e corações dos leitores, sentimentos singulares. “O tema inicial pode ser uma lembrança, uma pergunta, uma observação qualquer, uma anotação que redescubro em um caderno. A partir daí, começo a elaborar um caco, tentando isolar um momento de alta intensidade emocional, aqueles instantes marcantes que são significativos”, explica Ciça.

Os textos curtos de “Cacos” não possuem título, identificados apenas por números de 1 a 20, o que foi uma boa decisão editorial. A ausência do título em contos tão pequenos faz com que o leitor entre no texto livre de spoilers. Algo crucial para que a narrativa cause o efeito desejado. “Os números não entregam nada, deixam cada caco se tornar uma surpresa. Eles tiveram títulos comuns, depois em uma fase optei em destacar uma frase do texto como título”, conta Ciça, o leitor mais atento conseguirá reconhecer no texto algumas destas frases com potencial para título.

No design de “Cacos” criado por Silvio Testa, editor e diagramador apaixonado por livros, é fácil notar o cuidado que teve para que o visual fortalecesse o conteúdo da obra, principalmente na palavra-título, trabalhada de diversas formas diferentes na capa e no miolo do livro.

Apesar do livro se chamar “Cacos”, os contos estão longe de sê-lo. Mesmo que suas ideias talvez surjam como cacos, Ciça não permite que assim permaneçam em estado bruto, construindo histórias, personagens e cenas com uma imaginação inspirada, vasto repertório de referências e cuidado atento aos detalhes, até que se tornem brilhantes esculpidos com maestria.

“A grande revelação da literatura me foi dada por Clarice Lispector, quando eu era bem adolescente, no início dos anos 80. O impacto da leitura de “Água Viva” e de “Um Sopro de Vida” me marcou muito. Passei a testar uma prosa bem poética. Lembro também de me empolgar igualmente com Marguerite Duras, em “O Amante” e em “Hiroshima, Mon Amour”, e com Saramago, em “O Memorial do Convento”, diz Ciça, e realmente é possível notar certa semelhança inspirada entre sua prosa e a de Clarice.

Entretanto, a brevidade dos textos desperta a cobiça do leitor. O potencial de suas criações vai muito além de três ou quatro páginas. Para um primeiro livro, “Cacos” é uma grande promessa. Vendo o que Ciça consegue fazer com poucas páginas, é difícil não imaginar o que ela faria com as duzentas (Trezentas? Quinhentas?) de um romance, e a autora já está envolvida na produção de um.

“O próximo desafio é um romance. Na verdade, comecei a escrevê-lo há uns três anos, mas resolvi interrompê-lo para apurar melhor a técnica narrativa. Gosto muito de elaborar a linguagem, usar uma sintaxe mais livre e, para explorá-las também no romance, senti que precisava dominar melhor certos aspectos”, explica Ciça. Agora, com estes aspectos dominados, como “Cacos” deixa evidente, nada a impedirá de concluir seu romance. Muito ainda será lido, comentado, estudado, criticado e amado sob a assinatura de Ciça Lessa.

Link para a matéria: http://www.literaturaeoutrosdemonios.com.br/2017/06/cacos-o-primeiro-de-muitos-por-favor.html